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Então minha sombra veio me visitar. Esperava ao menos estar com a casa arrumada para recebe-la. Ela sabe que eu nunca fugiria de um encontro,  não faz meu tipo.

Sentou-se com seu café preto quase que sem açúcar, dispensou o ego da conversa,  era entre eu e ela… e pelo visto ninguém iria impedir. Logo com ela, minha “amiga” intima que sabe tudo sobre as profundezas do meu ser.

Abriu logo aquelas gavetas que eu insisto em manter trancadas, mas que ela por possuir a cópia das chaves, destrancava enquanto eu olhava pela janela da alma, um pouco rompante por sua visita.

Retruquei mais uma vez: – Não vamos ter essa conversa novamente, por favor, diga que não (implorei).  Olha, eu cresci, deixa eu te mostrar minha coleção de milagres, ou minhas medalhas por todas as vezes que eu levantei e fui mais forte do que imaginava poder ser. Por todas as coisas que eu já supe… sup…. a palavra não saia. Superei nada.

Ela riu sem mostrar os dentes, e em alto e bom tom mandou o ego sair. Me olhando profundamente disse: ” É entre eu e você, agora e aqui. ” Tremi. Era ela, minha sombra, senhora da escuridão que habita em mim, afinal, todos somos feitos de luz e sombra. Negar a sombra é negar uma parte importante que existe em si mesmo.

Seguiu abrindo as gavetas, na primeira estava guardado o orgulho, que logo saiu voando pela janela, me deixando completamente sem graça… Isso estava aí esse tempo todo é?! Senti-me envergonhada.

Na segunda gaveta, os rancores fantasiados de armaduras. Se desfizeram em puro pó. Eu senti uma leveza e ao mesmo uma fragilidade. Eu não quero ser assim, mas ao mesmo tempo, como é bom ser assim.

Outra gaveta se abriu e lá estava, o medo, a rejeição, o abandono… Me fazendo de cavalinho, me controlando sem eu perceber. Mostrando o lado ruim de tudo e tapando meus olhos pra ver tudo aquilo que eu poderia ganhar se não fosse o… de tentar.

Há essa altura ela já estava indo longe demais: – fecha isso… Gritei enquanto apertava os olhos fechados… É engraçado como a gente prefere não ver pra viver de mentiras que não nos fazem felizes.

Mas já era tarde, ela abriu a gaveta onde eu mantinha uma parte do meu coração trancado, todos os textos que eu não postei, todas as cartas que eu não mandei, toda emoção reprimida, todas as lagrimas,  sonhos, tudo o que eu quis dizer e não disse, tudo o que eu quis com a alma e fugi.Tudo aquilo que eu guardei só pra mim… Toda a felicidade que eu me neguei. Por favor, por favor… não…

Quando a sombra vem nos visitar, não há como fugir. Ela mostra aquelas verdades que insistimos em não ver. Ela vem pra te dizer que não existe razão, não existe controle, não existe certo ou errado. Existe apenas uma bússola e se chama coração. E se você não seguir essa voz, todo o caminho que pareceu ser atalho, é atraso.

E agora o que eu faço com todos esses fragmentos do meu “eu” ? Com tudo isso que eu escondi de mim. Com essa parte tão importante que implora liberdade de expressão. De emoção. De vida.

O que eu faço com essa emoção toda que você destrancou e agora se mostra com a força de um leão que me vem cobrar a vida que eu prometi. O que eu faço com essa criança interna que ainda sonha os mesmos sonhos?

Olhar no espelho da sombra e ver suas feridas refletidas, dói. Quantas vezes eu fui cruel com a pessoa mais importante da minha vida? Eu mesma.

Quantos sonhos neguei por dar as costas à criança mais linda da minha vida, a minha criança interna.

Doeu. Doeu a dor de um parto. Eu entendi que estava dentro de um grande útero, e que eu precisava fazer uma força sobrenatural pra dar à luz a mim, pra me trazer novamente à vida. Doeu uma dor nunca antes sentida.

Nessa hora, minha sombra me abraçou como quem faz as pazes comigo e liberasse toda a sua magoa pelo simples fato de agora eu a enxergar. De eu perceber sua existência e seu significado. Amorosamente, antes de se despedir sussurrou n0 meu ouvido:  Retorne a si mesma. Retorne criança.

– E como eu faço isso??

E a sombra desapareceu enquanto eu na presença sentia minha própria presença, eu serva de mim.

Beta Lotti

 

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